Reclama PB

A morte e a morte da vida

Por Redação em 10/06/2020 às 15:22:03

Eu não sei o que se passa entre as duas!!!

A pessoa que está viva e a morte que quer matar a pessoa vivem juntas desde seu nascimento, ou melhor, da sua gestação.

Por um descuido se morre, se morre sêmen, se é abortado, morre-se assim que se nasce e se vai morrendo aos poucos todos os dias: era assim no tempo da n, é no tempo meu que ora escrevo, será no tempo seu daqui há dez mil anos á frente: é atemporal!

Mas, o que se passa na cabeça de quem vive? Se vive com medo da morte, por isso pouco se vive, com medo de depois de morrer sofrer por ter vivido o que se quis, muito se morre antes da morte!

Na hora H, no dia D, nem as almas desencarnadas que nos visitam em sonhos, que se incorporam em médiuns revelam este segredo ... o corpo inertemente desvalido desconfigura-se e pula para dentro da morte, fugindo da vida, cumprindo sua sentença? Qual? Seria errado a eternidade corpórea? Talvez fosse mesmo muito chato vira lajedo ou diamante que é eterno, eterno apenas como as pessoas amantes que mesmo quando morrem continuam sendo amadas ...

Amadas? Es as questões: Choramos por que quando da perda de alguém? Da falta de coragem de não termos feito o que queríamos? De remorso (herança maldita de que as pessoas mais velhas tanto badalam em nossos ouvidos)? De raiva, mas por falta de coragem de assumir este sentimento, fingimos chorar de saudades e emprestamos uma emoção á outra emoção?

Parece que algumas sociedades tendem a idolatrar a figura que morre: exaltam-se qualidades que por vezes as pessoas nem as tem, esquece se tudo de ruim que fizeram e se rasgam peças inteiras de chitas em homenagens póstumas que nunca foram feitas em vida ....

Os velórios sempre regados a perguntas por vezes inconvenientes e teses mil sobre o motivo da morte. Não se pode sorrir, falar alto, atender telefone, mas se pode ler lábios, olhar atentamente as expressões de familiares, se chorou pouco ou muito.

Aqui e acolá se pergunta sobre a herança, mesmo que seja apenas a única casa da família ... Se aparecem viúvas carpideiras, amantes que ninguém ali sequer imagina e filhas e filhos desconhecidas da própria família, que em breve reclamarão a parte que lhes cabe! Silêncio, sono, celebração religiosa, cânticos, preces, água, um café ou chazinho com biscoito e aqueles olhares decaídos ainda que por osmose.

Uma noite inteira por vezes, sendo a pior noite da vida de quem está velando a pessoa morta: Chega logo astro rei e clareia o dia!

Depois da notícia, três momentos dolorosos: a chegada do corpo, a saída do local onde está sendo velado e a hora do enterro.

Geralmente "Segura na mão de Deus e vai" na hora do cortejo fúnebre, isso se for enterro de pessoas simples, caso contrário, são enterradas em silêncio, com choro discreto em cemitérios modernos sem alamedas e túmulos externos, quando não o são cremadas em ritual restrito, em quase todos a despedida se dá ao som de almas, mas também de tambores, berimbau ou violas. Tem enterros bonitos e outros feios!

Ninguém está livre de imprevistos como o caixão cair, crises de risos causadas por nervosismo, discussão entre parentes ou as presepadas de um bêbado que parece de súbito, uma figura folclórica do lugar ou uma pessoa louca causando.

O segredo que se passa entre a morte e a ida que morre só se sabe quando se chega a hora, mas, até mesmo nas culturas onde esta passagem é celebrada com festa, desconheço que não tenha no mínimo, algum receio da morte!

(Valdir Lima)

Fonte: Valdir Lima

Botecos 83
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