Reclama PB

MP recusa acordo e vai denunciar Bandeira de Mello e mais 7 por incêndio no Ninho do Urubu

O Ministério Público do Rio de Janeiro recusou nesta segunda-feira, 29, a proposta de acordo, para evitar um processo criminal, feita pelos oito indiciados no caso [...]

Por Redação em 29/06/2020 às 18:14:03

O Ministério Público do Rio de Janeiro recusou nesta segunda-feira, 29, a proposta de acordo, para evitar um processo criminal, feita pelos oito indiciados no caso do incêndio no Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019. Agora, o órgão está apto a oferecer uma denúncia. Entre os indiciados, que responderão por "incêndio culposo", com o resultado de dez homicídios culposos e três crimes de lesões corporais culposas, está o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello, além de funcionários e prestadores de serviço contratados para fazer a adaptação dos contêineres a dormitórios e para a manutenção da rede de eletricidade do alojamento usado pelos times rubro-negros de base. O clube informou que não vai se pronunciar publicamente, apenas no processo.

Os indiciados no caso são:

  • Danilo da Silva Duarte, engenheiro da NHJ, empresa fornecedora dos contêineres;
  • Edson Colman da Silva, técnico em refrigeração;
  • Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do Flamengo;
  • Fábio Hilário da Silva, engenheiro da NHJ;
  • Luis Felipe Pondé, engenheiro do Flamengo;
  • Marcelo Sá, engenheiro do Flamengo;
  • Marcus Vinícius Medeiros, monitor do Flamengo;
  • Weslley Gimenes, engenheiro da NHJ.

Em nota, o MP informou que "não há, por ora, como afirmar a ocorrência de dolo eventual no resultado morte". Porém, também destacou que "não restam dúvidas, diante das provas produzidas em sede policial, que uma série de condutas imprudentes e negligentes, por ação e omissão, em tese praticadas pelos indiciados, de fato concorreram de forma eficaz para a ocorrência do incêndio, bem como das mortes e ferimentos dele decorrentes". "Os indiciados deverão, assim, responder pelo crime de incêndio culposo", define o texto.

O Ministério Público também classificou como "negligente" a forma como o Flamengo tratava os atletas da base e criticou a maneira como o clube vem atuando na questão envolvendo as indenizações às famílias das vítimas. "Apesar da gravidade do caso, que expôs a forma negligente com que um dos maiores clubes do país tratava seus atletas de base e afetou a imagem do futebol brasileiro diante do mundo, o Flamengo vem permanentemente procurando mitigar pagamentos de indenizações às famílias das vítimas do incêndio, aumentando o desespero das mesmas, numa nítida tentativa de não sofrer qualquer prejuízo econômico decorrente do grave fato a que o próprio clube deu causa", diz o texto.

Confira, abaixo, a íntegra da nota emitida pelo MP-RJ:

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio do Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (GAEDEST/MPRJ), apresentou, nesta segunda-feira (29/06), Promoção de Adequação de Capitulação e Recusa de Proposta de Acordo de Não-Persecução Penal (ANPP) no Inquérito Policial nº 042-00897/2019, instaurado para apurar as circunstâncias e responsabilidades penais do incêndio de grandes proporções ocorrido na madrugada do dia 08/02/2019, no Centro de Treinamento George Helal, do Clube de Regatas do Flamengo, conhecido como "Ninho do Urubu", situado na Zona Oeste do Rio. O episódio resultou na morte de dez adolescentes e ferimentos em outros três jovens atletas, tendo sido a medida necessária em razão da entrada em vigor da Lei nº13.964/2019, mais conhecida como "Pacote Anticrime", que prevê o Acordo de Não-Persecução Penal.

Apresentada após três meses de paralisação do inquérito em virtude da pandemia de Covid-19, a Promoção do parquet fluminense lembra que, em relatório, a autoridade policial entendeu pelo indiciamento de membros e ex-membros da Diretoria do Clube de Regatas do Flamengo, de empregados do mesmo, prestadores de serviço contratados para adaptação de contêiner ao uso como dormitório e para manutenção da rede de eletricidade, amoldando as condutas ao tipo descrito no art. 121, § 2º, III, do Código Penal – homicídio doloso cometido com emprego de fogo ou de meio que possa resultar perigo comum.

Em breve exposição acerca do balizamento da denúncia que será oportunamente ofertada, o MPRJ salienta que não há, por ora, como afirmar a ocorrência de dolo eventual no resultado morte – não sendo viável deduzir ou intuir que os indiciados tivessem a potencial certeza da possibilidade do fato ocorrido no alojamento. No entanto, afirma o MP fluminense, não restam dúvidas, diante das provas produzidas em sede policial, que uma série de condutas imprudentes e negligentes, por ação e omissão, em tese praticadas pelos indiciados, de fato concorreram de forma eficaz para a ocorrência do incêndio, bem como das mortes e ferimentos dele decorrentes.

Os indiciados deverão, assim, responder pelo crime de incêndio culposo, com o resultado de 10 homicídios culposos e 3 crimes de lesões corporais culposas, sendo um deles o ex-Presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, que será notificado juntamente com os demais indiciados acerca da recusa de ANPP.

Na promoção o MPRJ lista os diversos fundamentos para a negativa de ANPP. De antemão, aponta a ausência de requisito fundamental para a celebração: a confissão. Nenhum dos indiciados confessou conduta de relevância penal em favor da investigação, limitando-se a negar a prática de qualquer conduta concorrente para o incêndio. Além disso, como critério subjetivo para a celebração do acordo, é necessário que a aplicação do novo instituto penal seja suficiente para reprimir o crime praticado – hipótese não configurada no caso em apreciação.

Por fim, o GAEDEST/MPRJ afirma que, apesar da gravidade do caso, que expôs a forma negligente com que um dos maiores clubes do país tratava seus atletas de base e afetou a imagem do futebol brasileiro diante do mundo, o Flamengo vem permanentemente procurando mitigar pagamentos de indenizações às famílias das vítimas do incêndio, aumentando o desespero das mesmas, numa nítida tentativa de não sofrer qualquer prejuízo econômico decorrente do grave fato a que o próprio clube deu causa. E conclui não ser cabível a propositura de ANPP aos indiciados, por não ser esta medida suficiente para reprimir o delito praticado, o qual tornou-se emblemático e merece ser submetido ao crivo do Poder Judiciário para que, através do devido processo legal e garantida a ampla defesa, haja o julgamento final do mérito e a devida atribuição de responsabilidades. Superada a fase de notificação dos indiciados e eventuais impugnações, conforme previsto na nova Lei e no regramento interno da instituição, estará o MPRJ apto ao oferecimento de denúncia.

Fonte: JP

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